Projeto Maresias: Arquitetura Resiliente Entre a Serra e o Mar
Ficha Técnica
Área do Terreno: aproximadamente 1.785 m²
Área Construída: 651 m²
Ano: 2025
Previsão para Obra: 2026
Localização: Maresias, São Sebastião – SP
O Projeto Maresias é a reforma de uma casa de praia que reúne, em um único lote, os desafios mais extremos da construção litorânea — enchentes recorrentes, a ação corrosiva da maresia e as ressacas que avançam sobre o terreno. Situado em Maresias, no município de São Sebastião, litoral norte de São Paulo, o conjunto é formado por três edificações que se estendem da rua até a beira-mar. Mais do que restaurar, a proposta foi tornar essa residência resiliente: capaz de conviver com um ambiente agressivo em vez de lutar contra ele, ao mesmo tempo em que ganha acessibilidade integral e uma nova relação com a paisagem.
Um terreno entre a serra e o mar
O lote é longo e longitudinal: de um lado se abre para a malha urbana e a serra; do outro, para a praia. Essa geografia, tão rica quanto exigente, faz o terreno se comportar como uma verdadeira bacia de captação de água. A casa do caseiro, situada na cota mais baixa, próxima à entrada, era a mais castigada — em eventos de chuva intensa, a água que descia da serra e transbordava do rio na frente do lote chegava à altura da cintura, danificando eletrodomésticos e móveis. O solo, encharcado, praticamente não infiltrava água, e a região sofre ainda com quedas de energia que se estendem por dias durante os temporais.
Do lado oposto, o mar impõe seus próprios problemas. O nível da areia varia ao longo do ano, e as ressacas avançam sobre o terreno — a ponto de uma escada de acesso à praia ter ficado, em determinado momento, sem chegar a lugar nenhum, suspensa acima da areia levada pela maré. A esses desafios físicos somava-se uma demanda humana central: garantir acessibilidade a todo o conjunto, incluindo um novo dormitório e banheiro projetados aos hóspedes que se locomovem em cadeira de rodas.
Acessibilidade que une o conjunto
Uma das diretrizes mais fortes do projeto foi transformar três edificações independentes em um percurso contínuo e acessível. Rampas de baixa inclinação, com piso antiderrapante e drenante, passaram a conectar a casa do caseiro, a casa de hóspedes e a casa principal, todas cobertas por pergolados que dão unidade ao conjunto e protegem os caminhos da chuva.
O gesto mais simbólico dessa premissa está na relação com a praia. Onde antes havia uma barreira, o projeto esculpiu no terreno uma rampa acessível que chega ao nível da areia independentemente da maré — quando a ressaca leva a areia embora, a rampa continua ali, cumprindo seu papel. O que era um obstáculo virou conexão integral entre a casa e aquilo que a motiva: o mar.
Materiais que trabalham com o clima, não contra ele
A maresia em Maresias é de uma intensidade fora do comum. Papel deixado sobre uma mesa voltava ondulado e úmido; peças metálicas se deterioravam em ritmo acelerado. Diante disso, a equipe adotou uma lógica clara: nenhum material é eterno, mas é possível escolher aqueles de maior resiliência e prever manutenção como parte natural da vida da casa.
O MDF foi descartado por completo. Em seu lugar, os mobiliários — camas, beliches e armários — foram executados em alvenaria, e a única madeira especificada foi a maciça. Os revestimentos priorizaram soluções monolíticas e minerais, muito mais resistentes que a pintura tradicional, com pedras naturais brasileiras diferenciando cada ambiente e conferindo personalidade única aos banheiros e quartos. Tecidos outdoor, luminárias com grau de proteção IP adequado e telhas metálicas galvanizadas com pintura eletrostática completam um repertório pensado, item a item, a partir dos laudos e garantias de resistência de cada fornecedor. Todos os telhados foram substituídos por um material mais durável e com melhor conforto térmico e acústico.
Luz natural contra a umidade
A vegetação densa que dá charme ao lote também o mantinha excessivamente sombreado e úmido. Para reverter isso sem sacrificar as árvores, os pergolados que unem as edificações receberam telhas translúcidas e um ripado de biriba, que filtra o sol intenso mas deixa a luz natural finalmente alcançar ambientes que passavam anos sem enxergá-la. Na casa principal, a varanda foi ampliada e nivelada com o interior por uma cobertura em borboleta, cuja calha central conduz as águas de chuva — a mesma linguagem estrutural que costura todo o conjunto e abre a casa, antes introspectiva, para a vista do mar.
Engenharia hídrica: da drenagem ao tratamento de esgoto
Se a arquitetura cuidou da resiliência dos materiais e da experiência de morar, foi a engenharia que enfrentou o problema estrutural da água. Como o solo foi considerado impermeável no dimensionamento — coeficiente de infiltração zero —, a solução precisou dar vazão a todo o volume que chega ao lote. Canaletas de concreto com grelhas percorrem o terreno em pontos estratégicos, conduzindo a água por caixas de captação até um reservatório de retenção de 60.000 litros, o maior que o terreno comporta sem conflitar com as árvores.
Trata-se do mesmo conceito das “piscininhas” urbanas, aqui aplicado em microescala: uma solução descentralizada que retém a água e a devolve, de forma automática, ao rio ao lado do lote. Bombas em paralelo garantem redundância e maior vazão, um gerador assume em caso de falta de energia e válvulas de retenção impedem qualquer refluxo. Na entrada, a rampa de veículos foi elevada e recebeu um portão-comporta para reduzir a água que invade o terreno vinda da rua.
O saneamento recebeu atenção igualmente cuidadosa. A antiga fossa séptica, incapaz de percolar em um solo saturado, foi substituída pela EcoTED, estação de tratamento compacta da Ecocasa com capacidade de 4 m³/dia. Diferente do tratamento anaeróbio convencional, a EcoTED adiciona uma câmara aeróbia que eleva a eficiência para além de 90% de remoção de contaminantes, resultando em uma água tão limpa que, a olho nu, se confunde com água potável — apta inclusive para reuso. Como o restante do sistema, ela é instalada sem obra civil e ancorada para o solo úmido característico da região, preservando ao máximo a capacidade de infiltração do terreno.
Um projeto que respeita o que já existe
Em meio a tantas intervenções técnicas, a preservação do lote foi inegociável. De toda a vegetação existente, apenas duas árvores precisaram ser realocadas. Os pergolados foram desenhados com aberturas e segmentações justamente para contornar exemplares que estão ali há muito mais tempo que qualquer projeto — e que dão a alma do lugar. O acesso difícil, por uma estrada de terra estreita e arborizada, exigiu que arquitetura e engenharia trabalhassem juntas desde o início, escolhendo sistemas compactos e transportáveis para que a solução funcionasse não apenas no papel, mas na obra.
“Tivemos que trabalhar com esse território, e não contra ele. Onde havia uma barreira, criamos uma conexão integral do terreno com aquilo que motiva essa casa, que é a praia.” — Arquitetos da Paisagem Construída (APAC), arquitetos parceiros da Ecocasa Arquitetura
Um refúgio que evolui com quem vive nele
O Projeto Maresias mostra como a arquitetura sustentável se prova, de verdade, nos contextos mais hostis. Cada solução — da rampa que vence o nível da praia ao reservatório enterrado sob as árvores — nasceu de um problema real e foi resolvida em parceria entre arquitetura, engenharia e indústria. O resultado é uma casa mais duradoura, acessível a todos que a habitam e finalmente banhada de luz, que abre-se para o mar e se deixa apropriar livremente por seus moradores.
Mais do que uma reforma, Maresias é a tradução de um propósito: transformar desafios extremos em qualidade de vida, com respeito ao meio ambiente e às pessoas que fazem daquele lugar o seu refúgio.