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Casa em Carmo da Mata: Uma Arquitetura que Nasce de um Pomar e Cresce no Tempo

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A Casa em Carmo da Mata começa por um desejo simples e revelador: ter um pomar. É a partir dele que todo o projeto se organiza. Situada em um terreno de forte declive no interior de Minas Gerais, a residência traduz a paisagem, o clima e a cultura locais em uma casa que se implanta com naturalidade no relevo, enquadra a vista de uma área de preservação e celebra, em cada detalhe, a dinâmica natural do ciclo da água. Mais do que um objeto acabado, é uma casa concebida para mudar no tempo, crescendo no ritmo da vida de quem a habita.

Ficha Técnica

Área do Terreno: aproximadamente 1.785 m²

Área Construída: 237 m²

Ano: 2024

Previsão para Obra: 2026

Localização: Carmo da Mata, MG

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Um pomar como ponto de partida

Antes de ser desenho, a casa foi intenção. O desejo de cultivar um pomar delimitou os três grandes setores do lote — pomar, lazer e casa — e, a partir deles, a edificação pôde ser elaborada com clareza, orientada pelos objetivos de seus moradores. Essa lógica de setorização organiza o terreno longitudinal em faixas de uso bem definidas, do pomar, que ocupa a maior porção da área livre, até o núcleo habitado, sempre em diálogo com a paisagem rural que o cerca.

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Uma casa em três fases

O princípio mais singular do projeto é o faseamento: a casa foi pensada a partir de sua mutabilidade no tempo, em três fases que podem ser implantadas conforme a necessidade, o gosto e a disponibilidade dos moradores. Na fase 1, a residência já funciona como um núcleo completo de habitação — uma suíte, área social, cozinha, lavanderia e garagem. A fase 2 expande a área íntima, acrescentando um banheiro completo e três dormitórios. E a fase 3 completa o conjunto com a área de lazer, que reúne piscina, churrasqueira, fogão à lenha e sauna.

Desse modo, a casa vai ganhando espaços aos poucos, sem nunca deixar de ser inteira. O núcleo-base estabelecido na primeira fase garante que, em qualquer momento, os moradores tenham uma residência plenamente funcional — e a liberdade de crescer quando fizer sentido.

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Assentada no relevo mineiro

O faseamento trabalha em conjunto com outra ideia estruturante: o assentamento da edificação no terreno natural. Diante de uma inclinação acentuada, e considerando questões financeiras, construtivas e estéticas, a implantação segue o aclive do terreno, encaixando os blocos de maneira mais natural e minimizando a movimentação de terra. O resultado, visível nos cortes escalonados do projeto, é uma casa que acompanha o solo em vez de combatê-lo.

Essa disposição está diretamente ligada à valorização da vista. Ao aproveitar a altura do terreno diante da paisagem desimpedida de uma área de preservação, os ambientes — voltados em sua maioria a leste — enquadram esse aspecto essencial do lugar. A linguagem adotada é a da casa mineira: beirais que protegem da chuva e da insolação, aberturas orientadas à paisagem e um grande alpendre na fachada frontal, ambiente social de vivência e contemplação que é, também, o coração afetivo da casa.

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Abrir e fechar: a dualidade da casa

As aberturas foram dispostas para enquadrar a paisagem, mas também de forma pontual, criando uma dualidade entre o interno e o externo que responde à personalidade dos moradores. A casa se abre à vista, valorizando o entorno, mas também se fecha para garantir aconchego e privacidade — sem jamais perder iluminação e ventilação naturais, garantidas por um jardim interno que também funciona como horta. Um muro de pedras encerra o contorno da residência, abraçando os blocos e transmitindo a segurança de uma área definida e protegida dentro de um terreno livre e permeável.

Essa tensão criativa percorre todo o projeto e se expressa nas escolhas de materiais e volumes: branco e azul, tinta e pedra, cheios e vazios, moledo e tijolo. É de dualidades assim — entre o proteger e o revelar — que a casa extrai sua identidade.

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O ciclo da água como forma

Se há um fio que costura o conjunto, é a água. Uma grande viga-calha conecta os blocos faseados e recebe as águas da cobertura, conduzindo-as a uma caixa de pedras que capta a água pluvial para reuso e, ao mesmo tempo, evidencia e celebra o ciclo natural da água. As telhas têm caída para calhas centrais, que levam a uma caixa de captação e, dela, a uma cisterna de armazenamento — um sistema que transforma um dado técnico em gesto poético.

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“O percurso das águas pluviais moldou a casa, assim como os cursos dos rios moldam as paisagens. A calha é o curso do rio, e a casa, a paisagem resultante.”  — APAC Arquitetura

Essa sensibilidade dialoga com uma ideia cara à arquiteta Lina Bo Bardi, referência do partido: a de viver protegido da chuva e do vento e, ainda assim, participar daquilo que há de poético mesmo em meio à tempestade. A Casa em Carmo da Mata materializa esse pensamento em pedra, tijolo e madeira — materiais de aspecto natural que a enraízam de vez na paisagem mineira.

Uma casa que é paisagem

A Casa em Carmo da Mata é, no fim, um exercício de escuta: do terreno, do clima, da cultura local e do modo de viver de seus moradores. Do pomar que a originou às fases que a fazem crescer, do relevo que a assenta ao ciclo da água que lhe dá forma, cada decisão nasce de um diálogo com o lugar.

O resultado é mais do que uma residência: é uma paisagem construída, que respeita o passado, acolhe o presente e permanece aberta ao futuro — pronta para evoluir junto de quem a chama de lar.

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